Formas de identificar a dor e as consequências da seleção artificial são debatidas em segundo dia do IV Congresso de Bem-estar Animal

20 de abril de 2017

Por Carolina Menkes

O IV Congresso Brasileiro de Bioética e Bem-estar Animal contou com mais um dia de debates acalorados em Porto Alegre (RS), com a presença de palestrantes internacionais de renome na área de bem-estar animal. Cerca de 350 pessoas acompanharam, nesta quarta-feira (19), palestras sobre a avaliação da dor animal e a influência da seleção artificial no sofrimento.

O professor de Medicina Veterinária da Universidad Autonoma de Barcelona, Xavier Vilanova, explorou as razões da dor em animais de produção.

“A dor é uma das causas da redução de bem-estar do animal e que pode reduzir a produção e aumentar as taxas de abate”, ressaltou.

               Xavier Vilanova, da Universidad de Barcelona. 

Segundo Vilanova, ao experienciar a dor, a sensibilidade do animal pode aumentar. “Além disso, a dor causada pelos criadores ou médicos veterinários e zootecnistas durante determinados procedimentos também aumenta o medo que eles têm dos humanos”, afirmou.

O piso muito duro, passagens desiguais, movimentos repentinos e rápidos, além da castração, do parto, e de doenças e machucados foram algumas das causas citadas que podem gerar a dor.

Segundo ele, além de mudanças psicológicas e bioquímicas, a expressão facial e a alteração de comportamentos são indícios para o reconhecimento da dor nos animais.

Para medir a intensidade dessa dor, o professor da Universidade Estadual Paulista de Botucatu, Stelio Pacca, lembra da importância de se ter instrumentos validados

Pacca ressalta que as características da dor são individuais e que dependem das condições em que o animal vive. Além disso, vêm da experiência prévia que cada animal teve. “A ferramenta que temos para reconhecer isso é o comportamento do animal, o que não é tão simples, é preciso conhecê-lo e entender as diferentes espécies”, explicou.

               Stelio Pacca, da Unesp/Botucatu. 

A diferença entre a dor aguda da dor crônica, segundo ele, revelam sinais totalmente diferentes. “Na dor aguda os veterinários são competentes para avaliar o animal, já na crônica, em que a resposta é mais sutil, os proprietários são os mais indicados, pois estão constantemente com os animais”, explicou.

Já ao se falar da dor em animais selvagens, o médico veterinário da Universidade de Salford Manchester, Robert Young, lembrou das cinco liberdades de bem-estar animal, especialmente a que afirma que o animal deve ser livre de ferimentos, doenças e dor. “Ainda temos problemas para avaliar a dor, pois ela muda o comportamento do animal, mas temos dificuldade para saber o nível”, avaliou.

No caso de animais de zoológicos, a enorme variedade de espécies ainda é um desafio. “Precisamos de um sistema rápido e fácil que seja baseado em observações e comportamentos”, pontuou.  

Seleção artificial

Questões “éticas” fizeram a plateia refletir durante palestra do médico veterinário Ian Duncan, da Universidade de Delph, que abordou a seleção artificial ligada ao sofrimento e à dor dos animais de produção.

“É aceitável usar recursos que aumentem a produção mesmo que isso provoque dor e sofrimento ao animal?”, questionou.

                Ian Duncan, da Universidade de Delph

Duncan ressaltou que muitas patologias dos animais são resultados de interações genéticas. “Mas ainda há poucas evidências de que as indústrias estejam ajustando o ambiente para adequar a produção elevada dos animais a uma condição de bem-estar”, criticou. Poucas áreas de descanso, dieta inapropriada e superfícies de concreto foram cictadas como exemplos negativos.

Para melhorar a situação, dar um passo atrás na seleção é necessário, na visão de Duncan. “A vontade de se ter produtos de origem animal cada vez mais baratos prejudica sua qualidade. É preciso que as pessoas valorizem mais esses produtos e pensem de onde eles vêm e sobre as condições dos animais que os originam”, colocou.

No caso dos animais de companhia, a seleção artificial também têm grande influência no bem-estar. É o que explicou o americano James Serpell, da Universidade da Pensilvânia, que ressaltou os efeitos na saúde de algumas raças de animais e como as pessoas se deixam levar pela aparência estética em detrimento da qualidade de vida do animal.

“As respostas emocionais a traços ‘bonitinhos’ de algumas raças, por exemplo as que têm fenótipos extremos como as de focinho achatado, acabam anulando a preocupação com a saúde e o bem-estar dos animais”, finalizou.  

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