ESPECIAL - O zootecnista faz a diferença no mercado pet

21 de maio de 2019

Para quem trabalha com animal de produção, quanto mais eficiente for o profissional, mais cedo o boi, o frango e o porco vão para o abate. Mas para quem trabalha com a nutrição pet, a lógica é outra. “Quanto mais eficiente for o zootecnista nessa área, formulando uma dieta completa e balanceada para cães e gatos, mais saudável ficam os animais, que ganham mais tempo e qualidade de vida. Foi por isso que escolhi essa área”, explica o zootecnista Gabriel Estivallet, doutor em nutrição de cães e gatos.

Foi na graduação, em 2008, que ele enxergou esse nicho de mercado e montou o Grupo de Estudos em Nutrição de Cães e Gatos, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/RS), para debater artigos e apresentar trabalhos na área. Encantou-se tanto pelo assunto e percebeu tamanho potencial de mercado que fez mestrado e doutorado em nutrição de cães e gatos, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – o último em esquema de intercâmbio com a Universidade de Berlim (Alemanha).

Os números da indústria estão aí para mostrar que a análise de Estivallet, 11 anos atrás, estava correta. Hoje, o Brasil é o terceiro do mundo em faturamento na indústria pet, que fechou 2017 com saldo de mais de R$ 20 bilhões e cresceu 8%, comparado ao ano anterior, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Pet (Abinpet).

Essa grandiosidade de números tem explicação. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2013, estimou a população de animais domésticos pela primeira vez no Brasil e contabilizou a existência de 52,2 milhões cachorros e 22,1 milhões de gatos nos domicílios.

“Pelo processo de antropomorfismo [humanização] que os pets foram acometidos, o mercado tem muita demanda, o que nos permite trabalhar de forma multidisciplinar e com um extenso campo de atuação para os zootecnistas”, afirma Estivallet.

Fábrica

Na indústria, ele trabalhou na área de pesquisa e desenvolvimento de alimentos para animais de companhia e conduziu o desenvolvimento de produtos que incluíam ingredientes frescos na dieta, como carne (e não farinha), maçã, cenoura, beterraba, banana e mamão. “Era uma demanda que os mercados norte-americano e europeu já dispunham na época, em 2013, mas no Brasil era novidade”, conta.

A equipe de Estivallet foi a primeira a lançar no mercado nacional seis produtos com ingredientes frescos voltados para pets adultos, filhotes, raças pequenas, médias, grandes. De acordo com o zootecnista, a expectativa era produzir 100 toneladas por mês de todos os produtos. Hoje, apenas de um desses produtos já se produzem 200 toneladas, mensalmente.

Docência

Embora tenha se apaixonado pela experiência na indústria por ser uma área dinâmica, com desafios diferentes a cada dia, hoje Estivallet está realizando seu sonho inicial de carreira, como professor do curso de Zootecnia, do Instituto Federal Farroupilha (IFF). A jornada até o cargo de docência foi longa. Natural da Bahia, transformou sua vida por completo, mudou-se para o Sul do país, onde fez toda sua formação. Agora se fixou na área acadêmica e ministra aulas de nutrição básica e específica de cães e gatos, bromatologia, comportamento e bem-estar animal.

“Quando entrei para a Zootecnia, em 2005, eu já tinha em mente a ideia de seguir a carreira acadêmica, porque sempre foi meu objetivo conseguir mudar a vida das pessoas através do conhecimento e da orientação”, conta.
Essa é uma outra área com oportunidades para zootecnistas, segundo ele. Tempos atrás, a disciplina de nutrição de cães e gatos era optativa, mas, tendo em vista o grande mercado e disponibilidade atual, passou a ser obrigatória na graduação de Zootecnia, única a oferecer a disciplina específica.

“Atualmente, existem grupos de pesquisa em nutrição de cães e gatos em poucas universidades brasileiras. Dos 131 cursos de graduação de Zootecnia ativos, apenas nove instituições têm professores especializados na área, com mestrado ou doutorado, para capacitar os alunos de Zootecnia e de Medicina Veterinária em nutrição de cães e gatos”, afirma.

Na área de pesquisa, Estivallet tem cinco artigos publicados em revistas científicas voltadas para a academia, sendo três em periódicos internacionais considerados de alto impacto (Qualis A1). Ainda possui cinco trabalhos publicados na revista técnica Pet Food Brasil, voltada a empresas que buscam dados para desenvolverem seus projetos de pesquisa, além de 30 resumos publicados em congressos. É um jovem pesquisador, mas já possui 17 citações de seus trabalhos.

Agro

Um dos projetos que ele destaca é o que desenvolveu em 2015, durante o doutorado, sobre o papel do mercado pet no fechamento do ciclo agropecuário. Dos 176 trabalhos submetidos ao edital conjunto do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da organização alemã de intercâmbio acadêmico Deutscher Akademischer Austauschdienst (DAAD), o projeto de Estivallet foi o único, dos 67 aprovados, voltado à área de produção animal.

Nesse estudo, Estivallet pesquisou o efeito da suplementação de ácidos graxos poli-insaturados na dieta de pets e percebeu que cães são super resistentes a estresse oxidativo. “Eles conseguem lidar muito bem com esses ácidos graxos poli-insaturados, permitindo à indústria pet reaproveitar os subprodutos gerados na agricultura e na pecuária”, relata.

Ele conta que, de modo geral, o mercado pet é tratado como supérfluo na academia. “Com esse projeto, consegui mostrar que ele tem relevância fundamental para o ciclo da agropecuária, uma vez que absorve todos os resíduos ou subprodutos gerados na produção animal, como vísceras e retalhos de carne, que são transformados em coprodutos, ingredientes e matéria-prima incluídos na nutrição de cães e gatos, evitando, assim, o desperdício e o impacto do descarte no meio ambiente.

Com experiência em fábrica, em área de pesquisa e docência, Estivallet acredita que o zootecnista desempenha papel fundamental em toda a cadeia do agronegócio e que trabalhar em ambientes multidisciplinares tende a ser mais produtivo. Ele explica que, nas propriedades rurais, os profissionais atuam de forma conjunta. O zootecnista assume a área de manejo e nutrição, enquanto o médico-veterinário fica responsável pela área clínica e sanitária.

Já em clínicas, o médico-veterinário identifica uma enfermidade, seja ela de origem nutricional ou não, e pode direcionar o paciente para o zootecnista, profissional da área de nutrição animal que formula o alimento que melhor se enquadra nas condições do paciente, respeitando o tipo de enfermidade, o porte, estádio fisiológico, sexo e necessidades nutricionais e energéticas do paciente. “É como ocorre em humanos, em que o médico direciona o paciente para um nutricionista”, explica.

“Sempre luto para que a gente consiga estimular cada vez mais as parcerias e os trabalhos multidisciplinares, unindo profissionais de diversas especialidades e atuando de forma conjunta”, conclui.

 

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