ESPECIAL - O zootecnista faz a diferença no bem-estar animal

17 de maio de 2019

“Trabalhar com animais em boas condições de saúde”. Essa era a motivação do zootecnista Mateus Paranhos quando começou sua carreira. Hoje ele é doutor e referência mundial em bem-estar animal, tem 18 livros publicados, 99 publicações em periódicos científicos, 394 resumos e 68 trabalhos publicados na íntegra em anais de eventos científicos. 

É pós-doutor em Bem-Estar Animal pela Universidade de Cambridge (Reino Unido) e recebeu 615 citações na literatura internacional no Scopus, considerada a maior base de dados de resumos e citações de literatura revisada por pares. Tornou-se referência internacional e, por seu trabalho na promoção do bem-estar animal, foi nomeado quatro vezes (de 2013 a 2016) pela Revista Dinheiro Rural como uma das cem pessoas mais influentes do agronegócio brasileiro.

      

Formação

A caminhada até esse ponto foi longa. Quando começou, bem-estar animal não era uma disciplina na graduação, tampouco uma área que oferecia oportunidade de emprego. Foi durante uma aula de Biometeorologia Animal que recebeu o convite do professor para participar de um projeto de pesquisa sobre comportamentos de adaptação ao calor de vacas leiteiras das raças Jersey e Holandês. 

“Esse projeto tinha uma característica muito particular, pois passávamos muito tempo observando as vacas, registrando o comportamento e tentando, a partir dessas observações, entender as suas estratégias para enfrentar os desafios do estresse por calor, muito frequente no período de primavera-verão”, conta. 

Com essa experiência, Paranhos se encantou pelo estudo do comportamento animal e se aproximou das faculdades de Biologia e Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), onde estavam a maior parte dos estudos de comportamento animal naquela época. Nesse período, ele conta que aprendeu a observar o comportamento de animais totalmente diferentes, como formigas, macacos e abelhas.

Do comportamento para o bem-estar animal ele diz que foi um passo. “É comum usar o comportamento animal para definir se os animais estão em boa condição. É óbvio que existem outros indicadores, como os de saúde, desempenho e ambiente. Essa combinação é que permite uma avaliação mais segura, mas o comportamento é um elemento importante”, destaca.

Quando se formou na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Jaboticabal, em 1981, o mercado não estava interessado em comportamento, nem em bem-estar animal. Paranhos sabia que não conseguiria emprego nessa área e foi trabalhar na fazenda de um tio, com gados de corte e leiteiro. A experiência durou pouco tempo e logo começou o mestrado em Zootecnia, dando continuidade ao projeto sobre o comportamento das vacas. Para complementar a renda, ainda trabalhava em uma empresa de nutrição animal.

Após o mestrado continuou sem emprego na área de bem-estar animal e prestava serviços em fazendas de Minas Gerais, dando apoio à produção de bovinos. Só em 1986, quando a Unesp abriu vaga de professor na área de Etologia, que é a abordagem biológica no estudo do comportamento animal, foi que Paranhos começou a realmente atuar com bem-estar animal. “Foi a primeira vez em que consegui um emprego na minha área específica de atuação, e onde dou aulas até hoje”.

Logo em seguida, fez o doutorado em Psicobiologia, na USP, concluído em 1995 e no qual pesquisou o estresse por calor em ovelhas. Entre 1998 e 1999, a convite do professor Donald Broom, de Cambridge, fez o pós-doutorado no maior centro de pesquisa em bem-estar animal da época. “Foi quando mergulhei de fato no tema bem-estar animal, combinando, obviamente, com a Etologia. A partir daí, por minha sugestão, foram criadas as disciplinas de Bem-Estar Animal nos programas de graduação dos cursos de Zootecnia e Medicina Veterinária, na Unesp de Jaboticabal”. 

Produção

Como grande especialista no tema, o zootecnista explica que a rentabilidade associada ao bem-estar animal não deve ser calculada apenas pelo aumento de produção, mas também pela redução de perdas. É aí que entra o conhecimento da Zootecnia, propondo boas práticas de manejo que visem, por exemplo, à diminuição da mortalidade de bezerros leiteiros ou à redução de hematomas nas carcaças. 

São técnicas como o aporte nutricional com mais oferta de leite, mais atenção no cuidado com a desinfecção do umbigo e a aplicação correta de vacinas e medicamentos. Tais manejos favorecem a promoção do bem-estar dos animais e reduzem os riscos de perdas produtivas. “A adoção das boas práticas de manejo tem um efeito imediato na redução dessas perdas e já chegamos a reduzir em 70% a taxa de mortalidade de bezerros em algumas fazendas leiteiras. Isso, obviamente, aumenta a receita da propriedade”, assegura.

Com relação à desmama de bovinos de corte, por exemplo, Paranhos comenta que, convencionalmente, os bezerros são separados e alocados em pastos geralmente muito distantes um do outro. “Essa é considerada uma desmama abrupta, pois ocorre de maneira repentina. O bezerro, além de perder o acesso ao leite, também perde total contato com a mãe, seja físico, visual ou auditivo”, explica.  Com a técnica da desmama lado a lado, o professor conta que os bezerros ficam em um pasto ao lado do de suas mães, podendo vê-las, aproximar-se e até tocar ou ser tocado por elas. “Nessa configuração, a perda de acesso ao leite não é somada à condição estressante de nem saber onde está a mãe”, esclarece. Além disso, é recomendado aos vaqueiros aumentar a frequência de contatos positivos com os bezerros, o que pode ser feito com a oferta diária de um pouco de ração. 

O estresse atua de forma acumulativa, diz Paranhos, e esse cenário permite diminuí-lo, com menos perda de peso dos bezerros e melhorar a resposta imune do animal. “Assim, eles ficam menos suscetíveis a doenças, como diarreia e pneumonia, contribuindo também para a redução no uso de antibióticos na propriedade”, afirma. 

Leitões

A ênfase nas boas práticas zootécnicas também é focada para evitar o esmagamento dos leitões e suspender medidas agressivas, como o corte dos dentes. O esmagamento de leitão ocorre quando a porca deita em cima de um deles, inadvertidamente, podendo provocar lesões graves ou morte. Isso pode ser evitado com adequações nas instalações e uma melhor condição de conforto térmico para porcas e leitões. “Tem estudos que mostram que quando a porca é muito boa de leite e as condições de criação no local propiciam uma boa acomodação, o risco de esmagamento é muito menor”, relata Paranhos.

O corte dos dentes, hoje considerado uma prática de manejo aversiva, era recomendado para minimizar os efeitos das mordidas dos leitões nas tetas das porcas, que causavam ferimentos e aumentavam o risco de infecções, como a mastite. “Eles mordem quando há pouco leite”, justifica o professor. Mas por que ela produz pouco leite? Pode ser consequência de problemas nutricionais, no ambiente térmico ou ainda decorrente da capacidade genética da porca. “Quando a porca está com estresse de calor ela reduz a ingestão de alimentos e, consequentemente, produz menos leite, aumentando com isso o risco de o leitão morder a teta”, exemplifica. 

Mercado

Paranhos explica que o que move a adoção de técnicas de manejo de criação, que visam a promover o bem-estar animal, não é exatamente o aumento da produção, mas outras duas questões: a primeira é de cunho pessoal. Uma decisão de quem não se conforma em ver os animais em más condições, com espaço muito restrito ou com problemas de saúde por conta das falhas na alimentação ou por manejo agressivo ou mal feito. A outra é comercial, devido à cobrança da sociedade. 

Esse segundo elemento, como ele afirma, também tem força do ponto de vista comercial. “Já existem empresas que atuam no Brasil que têm critérios claros de bem-estar animal e só compram dos fornecedores que seguirem os padrões determinados, inclusive, fazendo auditorias”. 

De acordo com Paranhos, os grandes frigoríficos brasileiros têm equipes de bem-estar animal com supervisores em cada planta, mais um coordenador geral, o que representa um grande campo de atuação para os zootecnistas brasileiros. “Tudo isso tem um objetivo claro: ter uma boa imagem com o público em geral, mas também manter mercados abertos para exportar para Europa, por exemplo, onde as exigências de bem-estar animal são auditadas e as empresas só continuam comprando se estiver tudo bem”, declara.

Quem tem interesse em fornecer para essas empresas deve seguir regras definidas de bem-estar animal. “O impacto nos negócios é tão grande que, no início de 2018, foram incluídas questões de bem-estar animal no Índice de Sustentabilidade Empresarial de empresas que operam na Bolsa de Valores, particularmente, para organizações cuja atuação tem impacto direto (utilização, consumo ou alteração) em recursos ambientais (renováveis e não renováveis) nos relatório de sustentabilidade das empresas (ISE B3).

 

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