A atuação da brigada veterinária no resgate de animais em Brumadinho

14 de fevereiro de 2019

Em virtude do rompimento da barragem de rejeitos de mineração do Córrego do Feijão, em Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte, entre 25 de janeiro e 9 de fevereiro, mais de 400 animais foram resgatados e atendidos pela equipe de médicos-veterinários, coordenada pela Comissão de Desastres, do Conselho Regional de Medicina Veterinária de Minas Gerais (CRMV-MG).

Chamada de Brigada Animal, a equipe trabalhou de forma voluntária e ininterruptamente por 16 dias em Brumadinho, junto com o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil, sempre respeitando as hierarquias e seguindo os protocolos de segurança necessários em resgates dessa proporção.

Agora, com o risco de rompimento de barragens nos municípios de Barão de Cocais e Itatiaiuçu, a equipe presta assistência aos animais que ainda estão nessas áreas.

O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) destaca que o trabalho da Brigada conta com o apoio da Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais (Anclivepa Minas), da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da organização não-governamental (ONG) World Animal Protection.

O presidente do CFMV, Francisco Cavalcanti de Almeida, avalia de forma positiva a união de forças com as ONGs que atuaram de forma séria, responsável e valorizando o trabalho dos médicos-veterinários e zootecnistas envolvidos.  

“Sentimos muito pelas perdas dessa tragédia, nos solidarizamos às vítimas e seus familiares, parabenizamos a dedicação da Brigada Veterinária comprometida com o resgate da fauna, e agradecemos às entidades que trabalharam em sintonia com as nossas equipes e se associaram de forma positiva ao nosso trabalho”, disse o presidente.

Mesmo em circunstâncias tão delicadas, o presidente acredita ser possível tirar essa lição positiva. “Queremos convergências quando se fala em bem-estar animal e nosso desejo é que as ONGs se somem cada vez mais ao nosso trabalho, com a convicção de que o profissional será orientado a cumprir a legislação vigente”, reforçou.

Medicina Veterinária Legal

O presidente da Comissão Nacional de Medicina Veterinária Legal (CNMVL) do CFMV, o médico-veterinário e perito criminal da Polícia Federal, Sérvio Reis, esteve em Brumadinho e trabalhou na identificação de vítimas, bem como participou do resgate de alguns animais.

De acordo Reis, a experiência mostra a necessidade de aperfeiçoar os protocolos de prevenção de desastres, com planos de contingência e sistemas de comando que incluam os trabalhos de resgate e primeiros socorros de animais sobreviventes em cenários caóticos.Confira a seguir o relato completo do perito.

A Medicina Veterinária e as lições do desastre de Brumadinho
Sérvio Túlio Reis, Presidente da CNMVL/CFMV

Na tarde do dia 25 de janeiro de 2019, a notícia do rompimento da barragem da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho/MG, surpreendeu o país com notícias chocantes de um dos maiores desastres da sua história. Nos primeiros momentos ainda não tínhamos a real dimensão dos danos e do número de vítimas, mas nas horas que se seguiram, as informações que chegavam eram desalentadoras.

Imediatamente, as forças de segurança pública foram chamadas para o atendimento ao desastre, inicialmente voltadas para o resgate de vítimas humanas e para mitigação dos riscos. Entretanto, com o passar do tempo, outras atividades tiveram início no local, como as relacionadas à identificação das vítimas fatais (DVI*), resgate dos animais e perícia ambiental.

Integro a equipe de DVI da Polícia Federal desde 2013, quando passamos a adotar os protocolos internacionais e redigimos o Manual de Perícias em Situações de Desastres em Massa, impulsionados pela aproximação dos grandes eventos, como a Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016. Naquele momento, na fase de preparação para os jogos, foram realizadas inúmeras reuniões interinstitucionais em todo o país visando à formulação de planos de contingência que incluíssem as atividades periciais de identificação de corpos e de perícia criminal.

Assim, ainda no dia 25 de janeiro, fui acionado pela Polícia Federal para compor o grupo de DVI que deveria se deslocar a Minas Gerais, a fim de colaborar com as forças locais no trabalho de identificação das vítimas do desastre.

No dia 26 de janeiro, cheguei à Faculdade ASA de Brumadinho, onde funcionava o posto de comando do incidente, onde encontrei as médicas-veterinárias Laiza Bonela, presidente da Comissão de Medicina Veterinária Legal do Conselho Regional de Medicina Veterinária de Minas Gerais (CRMV-MG), e Ana Liz Bastos, presidente da Comissão de Bem-estar Animal do CRMV-MG. As profissionais já estavam atuando no resgate e primeiros socorros aos animais atingidos pela lama da barragem, mobilizando os trabalhos da “Brigada Animal”, com apoio do CRMV-MG e do Conselho Federal Medicina Veterinária (CFMV).

A base do DVI no local do desastre foi erguida ao lado da igrejinha, no Córrego do Feijão, onde já se encontravam instaladas as demais instituições, como Bombeiros, Defesa Civil, Polícias, entre outras. Apesar de o trabalho da minha equipe naquela ocasião ser voltado às vítimas humanas, pudemos participar do resgate de alguns animais que foram encontrados nas proximidades, o que nos permitiu testemunhar de perto a coragem e a dedicação dos médicos-veterinários, biólogos e voluntários integrantes da Brigada Animal.

A todo esse esforço de socorro aos animais vítimas do desastre, somaram-se os trabalhos de perícia ambiental, que também contavam com médicos-veterinários Peritos Criminais da Polícia Federal e da Polícia Civil, além de assistentes técnicos do Ministério Público. Todos empenhados na mensuração dos danos à fauna, entre outros, resultantes da dispersão dos rejeitos de minério da barragem.

No dia 4 de fevereiro, em uma sala do posto de comando em Brumadinho, foi realizada reunião da Comissão de Medicina Veterinária Legal do CRMV-MG, da qual participei como representante do CFMV, na qualidade de presidente da Comissão Nacional de Medicina Veterinária Legal (CONMVL/CFMV).

Além da presidente Laiza Bonela Gomes, compõem a comissão estadual os médicos-veterinários Aldair Junio Woaymes Pinto, Ana Liz Ferreira Bastos, Aníbal Souza Felipe, Fernanda Cristine Soares Teixeira, Helena de Castro Teotonio, Luísa de Oliveira Lisboa, Silene Barreto e Wender Paulo Barbosa Ferreira.

Entre os temas tratados na reunião, foi ressaltada a necessidade de inclusão da Brigada Animal nos planos de contingência da Defesa Civil, como forma de conferir maior agilidade na integração da atenção aos animais no contexto dos desastres em massa, a exemplo do que já é feito para vítimas humanas.

A cooperação que se deu entre médicos veterinários do CRMV/CFMV, da Polícia Federal, da Polícia Civil, do Ministério Público, órgãos ambientais e ONGs, além de outros profissionais envolvidos, evidencia o grande potencial de otimização do uso de recursos humanos e materiais em eventos dessa natureza.

E há muitas lições a serem aprendidas a partir dessa tragédia. Notadamente em relação à prevenção de desastres, pois as medidas adotadas até agora nesse campo têm se mostrado insuficientes. Os desastres acontecem, sejam eles naturais ou não, e cabe às instituições estarem preparadas para atendê-los da melhor forma possível. A adoção de protocolos integrados, planos de contingência e sistemas de comando unificado parece ser o caminho mais concreto para a excelência das atividades em cenários caóticos. Nesse contexto, não há razão para que o atendimento aos animais seja descolado do Sistema de Comando de Incidentes, ferramenta que vem sendo utilizada com sucesso em desastres em massa por instituições de todo o mundo. Seria apenas necessária a adaptação dos protocolos já existentes para a sistematização dos trabalhos de resgate e primeiros socorros de animais sobreviventes, identificação de animais vivos e sua restituição aos proprietários, encaminhamento para adoção ou destinação dos animais silvestres, busca e recuperação de corpos, exames periciais necroscópicos e coletas de amostras, entre outras atividades, tudo isso acompanhado da produção de documentos de caráter médico-legal elaborados com o critério que o caso requer.

Desastres de grandes dimensões, como o vivenciado em Brumadinho, reforçam a importância do estabelecimento prévio de protocolos técnico-científicos bem fundamentados, elaboração de planos de contingência para desastres em massa que sejam abrangentes e inclusivos, e investimentos em capacitação de profissionais e voluntários. Especial atenção deve ser dada aos exercícios simulados, com a participação de múltiplas agências, como forma de atingirmos a eficiência e a eficácia requeridos em atenção às pessoas, aos animais e ao meio ambiente.

Finalmente, em meio a tanta tristeza, temos a satisfação de acompanhar as atividades de profissionais e voluntários que têm empenhado todos os seus esforços na mitigação dos danos desse enorme desastre, como verdadeiros heróis. Destaca-se aqui a vasta experiência acumulada por um grupo de médicos e médicas-veterinárias em um campo de conhecimento ainda restrito no Brasil, a “Medicina Veterinária de Desastres”. Tal expertise foi forjada na adversidade, especialmente em razão dos desastres de Mariana, em 2015, e de Brumadinho, em 2019. Agora precisamos trabalhar para que essa experiência seja bem aproveitada e difundida e para que estejamos cada vez mais preparados para eventos que esperamos que nunca mais se repitam.


* DVI - Disaster Victim Identification, grupo de trabalho liderado pela Interpol, especializado em identificação de vítimas de desastres em massa.